Dólar abre próximo da estabilidade com guerra no Irã em foco
Por Folhapress
20/04/2026 às 10:17
Foto: Valter Campanato/Arquivo/Agência Brasil
O dólar iniciou esta segunda-feira (20) rondando a estabilidade
O dólar iniciou esta segunda-feira (20) rondando a estabilidade após o Irã fechar novamente o estreito de Hormuz e rejeitar nova rodada de negociações com os EUA.
Às 9h34, a moeda norte-americana caía 0,04%, a R$ 4,981. O movimento difere do observado no exterior, onde o dólar avança: o índice DXY, que mede o desempenho da divisa em relação a uma cesta de seis moedas fortes, subia 0,17% no mesmo horário.
Na sexta (17), o dólar caiu 0,18%, cotado a R$ 4,983, e a Bolsa recuou 0,55%, a 195.733 pontos.
Ao longo do fim de semana, a escalada das tensões voltou a interromper o tráfego na região. No sábado (18), a Guarda Revolucionária iraniana realizou ataques contra embarcações que transitavam pelo estreito de Hormuz, segundo agências internacionais.
Teerã afirmou ter retomado regras mais rígidas de passagem após o que classificou como violações por parte dos Estados Unidos. Em discurso televisionado, Mohammad Bagher Ghalibaf disse que Washington não conseguiu pressionar o Irã por meio de ultimatos nem obter apoio internacional para a guerra.
Donald Trump respondeu às afirmações dizendo que o Irã estava "fazendo graça" e que não conseguirá chantagear os EUA. Neste domingo, o presidente norte-americano voltou a ameaçar destruir a infraestrutura do país.
O petróleo volta a subir nesta segunda com as mensagens contraditórias sobre o conflito. O barril do Brent, referência internacional, era cotado a US$ 95,29 por volta das 8h20 desta segunda no contrato com vencimento em junho deste ano, uma alta de 5%. Na máxima do dia chegou a US$ 97,50.
Na sexta, investidores reagiram à possibilidade de Estados Unidos e Irã chegarem a um acordo de paz ao longo do final de semana. A moeda chegou a tocar a mínima de R$ 4,950 logo no início da sessão, embalada pelo otimismo em relação a uma trégua e pelo anúncio de reabertura do Estreito de Hormuz, via marítima no centro da crise energética causada pela guerra no Oriente Médio.
O alívio nos gargalos do estreito desencadeou um tombo de mais de 10% nos preços do petróleo Brent, referência internacional, e enfraqueceu a moeda norte-americana globalmente.
"Por um lado, o enfraquecimento do dólar tende a beneficiar o real, assim como outras moedas emergentes e ativos de maior risco, como ações. Por outro, a queda nos preços do petróleo pressiona papéis de empresas como a Petrobras e demais companhias ligadas a commodities energéticas, que vinham oferecendo suporte relevante ao real desde o início do conflito", afirma Lucca Bezzon, especialista em inteligência de mercado da StoneX.
"Ou seja, há forças opostas atuando no mercado. Esse movimento limita o avanço da moeda brasileira e também impacta negativamente o Ibovespa."
O petróleo Brent chegou a ser negociado abaixo do patamar de US$ 90 —o menor valor em mais de um mês.
O anúncio de reabertura de Hormuz, via por onde passam 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito, veio ainda pela manhã, no horário de Brasília. "A passagem de todos os navios comerciais pelo estreito de Hormuz foi declarada totalmente aberta para o período restante do cessar-fogo", afirmou Abbas Araghchi, chanceler do Irã, em post na rede social X.
O ministro, porém, não deixou claro se o cessar-fogo a que se referia era o acordo entre Israel e Líbano, que começou às 0h do Líbano (18h de Brasília na quinta-feira) e deve se estender até 26 de abril, ou ao pacto entre EUA e Irã, que começou em 7 de abril e acaba no dia 21 deste mês.
A decisão foi elogiada por Donald Trump. "OBRIGADO!", escreveu o presidente norte-americano na plataforma Truth Social. Ele disse, contudo, que o bloqueio naval norte-americano continuará valendo para navios com petróleo do Irã enquanto um acordo não estiver fechado.
"Para as próximas sessões, é possível que a normalização das cadeias globais, com a reabertura do Estreito de Hormuz, volte a favorecer o real", diz Bezzon.
O tráfego por Hormuz é uma das questões mais sensíveis do conflito. O Irã usou o controle militar que tem sobre a via para pressionar economicamente Trump, e os gargalos na cadeia energética global levaram à disparada do preço do petróleo para perto de US$ 120 o barril —o dobro da previsão para a commodity neste ano antes do conflito.
A reabertura da via marítima animou o mercado. "Os comentários do ministro das Relações Exteriores do Irã indicam uma desescalada enquanto o cessar-fogo estiver em vigor. Agora precisamos ver também se o número de navios-tanque que cruzam o estreito aumenta substancialmente", disse o analista do UBS Giovanni Staunovo.
Ainda na sexta, a consultoria Kpler, referência no monitoramento de tráfego marítimo, disse à agência France Presse que três petroleiros iranianos conseguiram furar o bloqueio naval, levando 5 milhões de barris de óleo para fora do golfo Pérsico na quarta-feira (15).
O cenário geopolítico foi o principal responsável pela desvalorização do dólar frente ao real e pela alta da Bolsa nesta semana. A trégua temporária impulsionou a busca global por ativos de risco e retomou o fluxo de investidores estrangeiros para mercados emergentes.
A queda do petróleo, porém, puxou para baixo as empresas petroleiras com negócios na Bolsa. As ações preferenciais e ordinárias da Petrobras caíram 4,85% e 5,31%, respectivamente, cotadas a R$ 46,22 e R$ 50,81. Prio e PetroRecôncavo caíram mais de 4% cada; Brava, 6%.
"Assim como a Petrobras serviu de colchão para o Ibovespa nos momentos mais turbulentos da guerra, sustentando ganhos quando os demais setores da Bolsa caíam, vimos o movimento contrário hoje, com a queda dela freando o índice como um todo", diz Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos.
