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Instituto lança ferramenta para monitorar irregularidades na área da saúde

Instituto lança ferramenta para monitorar irregularidades na área da saúde

Por Laiz Menezes/Folhapress

25/05/2026 às 07:30

Foto: Divulgação/Arquivo/PF

Imagem de Instituto lança ferramenta para monitorar irregularidades na área da saúde

Agentes da PF e GCU

O IES (Instituto Ética Saúde), organização da sociedade civil sem fins lucrativos, lançou uma plataforma para divulgar casos de corrupção e irregularidades na área da saúde. Até o momento, foram rastreados apenas casos de repercussão nacional divulgados na mídia.

Foram identificados 38 casos de corrupção na saúde em investigação entre 2025 e 2026, sendo 27 no ano passado e 11 até março deste ano. Como as apurações ainda não foram concluídas, os casos podem ou não resultar na confirmação de irregularidades. Os dados estão disponíveis no Radar Ética Saúde, na plataforma Ites (Inteligência e Transparência da Ética na Saúde).

Filipe Venturini, diretor-executivo do Instituto Ética Saúde, afirma que não havia no país um levantamento amplo voltado exclusivamente para irregularidades na área da saúde e avalia que o total de 37 casos identificados em menos de dois anos é expressivo.

Para dimensionar o volume do levantamento, Venturini compara os dados da plataforma com os da CGU (Controladoria-Geral da União), que realizou 76 operações de combate à corrupção no país em 2025, considerando diferentes áreas da administração pública.

"Dá para mensurar que é um número considerável, porque a CGU contabilizou casos de diferentes áreas, e nós rastreamos 27 apenas na saúde", diz.

O IES, que atua na promoção de práticas éticas e transparentes na saúde brasileira, afirmou ter identificado e encaminhado 63 casos suspeitos de corrupção desde 2015, dos quais apenas três foram concluídos — não foram especificados quais foram esses casos.

O número de casos registrados desde 2015 ainda é considerado preliminar pelo instituto, que afirma estar refinando o levantamento das investigações mais antigas.

Segundo Venturini, um dos objetivos da plataforma é permitir que a população acompanhe o andamento das investigações e os desfechos dos casos, incluindo condenações e absolvições.

"Investigações criminais, principalmente as que envolvem corrupção, podem acabar com a imagem de uma pessoa que depois pode ser considerada inocente. É importante mostrar os casos e também seus desfechos, apontando quem foi condenado e quem foi inocentado", afirma.

Em 2025, as más práticas mais recorrentes identificadas pelo levantamento do Instituto Ética Saúde envolveram irregularidades em OSS (Organizações Sociais de Saúde), como desvio de recursos, nepotismo, fraudes e superfaturamento; corrupção e desvios de recursos públicos na saúde; contratação de empresas sem capacidade técnica; uso de documentos falsos para reembolsos; e fraudes em licitações e contratos públicos.

Também apareceram casos de contratação sem licitação, simulação de competitividade em licitações, desvio de finalidade na aplicação de recursos, direcionamento de editais, violação ética contra pacientes, uso de "laranjas" em contratações públicas e vazamento de dados de médicos.

Já em 2026, os principais casos envolveram direcionamento de editais, irregularidades em OSS e vazamento ou uso indevido de dados de médicos. O levantamento também identificou coerção de pacientes e familiares, contratação de empresas sem capacidade técnica, desvio de finalidade na aplicação de recursos públicos, oferecimento de brindes em troca de indicação e uso ou importação de produtos sem registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Em São Paulo, algumas das ações deste ano incluem a Operação Bula Fria, que investiga um esquema de comercialização ilegal de medicamentos oncológicos sem registro sanitário no país, e a Operação Glycon, que apura o acesso e a comercialização indevida de dados sensíveis de pacientes do SUS por meio de uma ferramenta baseada em inteligência artificial usada por profissionais de saúde.

O IES afirma que a plataforma ainda será aprimorada, com previsão de conclusão no primeiro trimestre do próximo ano, para ampliar o rastreamento de casos dos últimos dez anos e incluir a situação atualizada de cada investigação ou operação monitorada, indicando, por exemplo, se houve condenação, absolvição ou arquivamento.

Queixas contra planos de saúde

A plataforma do IES também reúne dados sobre reclamações de usuários contra planos de saúde. Nos últimos dois anos, o Brasil teve 622 mil registros de NIP (Notificação de Intermediação Preliminar) à ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), média de 864 por dia.

As NIPs funcionam como um canal de mediação de conflitos entre consumidores e planos de saúde. O levantamento considera as dez maiores operadoras do país, que concentravam cerca de 42 milhões dos 53 milhões de beneficiários da saúde suplementar entre janeiro de 2024 e março deste ano.

As principais queixas envolvem negativas de cobertura, demora na autorização de procedimentos, restrições de acesso e reajustes considerados abusivos.

A Confederação Nacional das Cooperativas Médicas, que reúne as cooperativas Unimed, lidera o ranking de notificações, com 239.165 registros (37,6% do total). Na sequência aparecem Hapvida NotreDame, com 131.963 queixas (20,8%), e Bradesco Saúde, com 85 mil notificações (13,4%).

A Unimed afirma que o indicador mais adequado para comparação é o IGR (Índice Geral de Reclamações) da ANS, que pondera as notificações pelo número de beneficiários. Segundo a entidade, o IGR consolidado do sistema foi de 33,12 entre janeiro e março de 2026, abaixo da média do mercado, de 51,79.

"O IGR é importante para comparar operadoras de tamanhos diferentes, mas não elimina a relevância das NIPs absolutas, que mostram o volume real de reclamações", afirma Sérgio Rocha, presidente do Instituto Ética Saúde.

A Hapvida NotreDame também defende a análise proporcional das reclamações. "No período analisado, a companhia apresentou redução de aproximadamente 11% no IGR da base Hapvida e 25% na base NotreDame, indicando melhora no volume proporcional de demandas, mesmo diante de uma operação com quase 16 milhões de beneficiários."

Já o Bradesco Saúde afirmou que seguirá o posicionamento da Federação Nacional de Saúde Suplementar, que afirma que o volume de NIPs deve ser analisado em relação ao total de atendimentos realizados pelo setor, que soma cerca de 5,3 milhões de procedimentos por dia. A entidade também afirma que cerca de 80% das notificações são resolvidas em até cinco dias.

As NIPs são notificações abertas pela ANS a partir de demandas de consumidores e não equivalem necessariamente a infrações confirmadas. Ainda assim, o presidente do IES afirma que o indicador é relevante por mostrar o volume de conflitos que levam beneficiários a acionar a agência reguladora.

"O simples fato de o consumidor precisar recorrer à ANS já indica algum nível de conflito, dificuldade de acesso ou falha na relação com a operadora", afirma.

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