/

Home

/

Noticias

/

Bahia

/

Adaptação lenta da rede elétrica na Bahia ameaça arara-azul-de-lear, diz projeto de conservação

Adaptação lenta da rede elétrica na Bahia ameaça arara-azul-de-lear, diz projeto de conservação

Promotora reconhece demora para resolver problema, e Neoenergia diz ter modificado mais de 6.100 estruturas

Por Gabriel Gama/Folhapress

07/06/2026 às 10:40

Foto: Divulgação

Imagem de Adaptação lenta da rede elétrica na Bahia ameaça arara-azul-de-lear, diz projeto de conservação

Arara-azul-de-lear

A caatinga abriga a única população selvagem da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), espécie em perigo de extinção. Graças a um projeto de conservação iniciado em 1993, o total de aves saltou de 50 para 2.548 em três décadas, mas a rede elétrica da região impõe uma ameaça crescente aos animais.

A organização privada Fundação Biodiversitas gerencia a Estação Biológica de Canudos, no norte da Bahia, e registra 192 indivíduos mortos por choques em linhas de média e baixa tensão nos últimos anos.

Erica Pacifico, pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), estuda a conservação da espécie desde 2008 e afirma que os óbitos se tornaram mais frequentes por causa do avanço do desmatamento, fazendo com que as araras passem a buscar alimento nas áreas rurais –onde a fiação elétrica representa risco de vida para casais em idade reprodutiva e filhotes.

Segundo a especialista, seria necessário inverter a posição dos transformadores para evitar a descarga elétrica. "É uma solução muito simples, e não está sendo feito. Já faz cinco anos que existem tratativas com o Ministério Público, mas a gente não vê reação", afirma à reportagem.

Luciana Khoury, promotora de Justiça Ambiental de Paulo Afonso (BA), diz que as autoridades tomaram conhecimento do caso em 2020. Investigações iniciais confirmaram que a causa dos óbitos era a eletroplessão, o nome técnico para morte por choque elétrico acidental.

Khoury afirma que o Ministério Público planeja firmar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a Neoenergia, a empresa responsável pela energia da Bahia, para definir protocolos de adaptação das estruturas já existentes e garantir que todas as novas instalações sejam construídas no padrão adequado.

"O tempo acabou sendo mais longo do que se deseja e, com isso, mais consequências para as araras", diz. De acordo com a promotora, ainda falta definir a área exata em que será necessário fazer os ajustes, e a próxima reunião deve acontecer neste mês para fechar o acordo.

A Neoenergia afirma ter modificado mais de 6.100 estruturas para evitar mortes de aves, com adaptações que incluem padrão construtivo para permitir pouso seguro, distanciamento entre as fases da fiação e reposicionamento de isoladores, para cortar o fluxo da corrente elétrica.

"Fazemos trocas constantes e contínuas nos municípios onde tem ocorrência das araras, para que elas possam ter uma interação sem risco de morte", diz Daniel Daibert, superintendente de meio ambiente e fundiário da Neoenergia.

A bióloga Tânia Maria Alves, gerente da Estação Biológica de Canudos, vê a situação de outra forma. "Infelizmente, isso ainda não foi finalizado, não está da maneira que deveria ser, e as araras continuam morrendo."

"Esse problema cresceu de 2018 para cá, e falta muito para resolver", diz o guarda-parque Guilherme Feitosa de Jesus, que também atua como assistente de pesquisa.

Erica Pacifico afirma que a distribuição de energia é importante para a população e que, por causa disso, o assunto é pouco falado. "Mas tenho clareza para dizer que a principal ameaça para a arara-azul-de-lear hoje é a eletroplessão, sem sombra de dúvidas."

Ao ser perguntada sobre os impactos de torres eólicas instaladas em Canudos, a pesquisadora diz que não há registro de mortes de aves e que um estudo com base em dados de altitude e velocidade de voo identificou baixo perigo de colisão com pás de aerogeradores.

"Não temos evidência nenhuma de que o parque eólico cause risco para as araras, enquanto a rede de energia mata bicho agressivamente", afirma a especialista.

O jorna Folha de São Paulo acompanhou uma expedição à Estação Biológica de Canudos em abril e observou as aves em vida livre no início da manhã, quando deixam os ninhos, construídos exclusivamente em paredões de arenito calcário, à procura da iguaria favorita da espécie: o licuri, fruto de uma palmeira.

No dia seguinte à visita da reportagem, guarda-parques encontraram uma arara morta na rede elétrica. A equipe afirma que contabiliza de 1 a 3 óbitos por mês, em média.

"Uma espécie ameaçada com histórico de 200 eletrocussões significa uma preocupação muito grande para a gente que luta no dia a dia", diz Jorge Velloso, superintendente da Fundação Biodiversitas. A organização recebe apoio da Seguros Unimed e tem parceiros internacionais.

Outro risco vem de Curaçá, também na Bahia, onde um surto de circovírus atingiu as ararinhas-azuis reintroduzidas à natureza pela ONG alemã ACTP (Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados) e pela empresa brasileira Blue Sky. Não há tratamento conhecido para o microrganismo, que pode matar as aves.

O foco da doença se localiza a 120 km em linha reta da Estação Biológica de Canudos. De acordo com Erica Pacifico, as araras-azuis-de-lear costumam voar cerca de 60 km por dia, mas podem voar até 200 km de forma exploratória.

"O circovírus na área de soltura da ararinha-azul é uma bomba para a gente, é um perigo sério", afirma a especialista. Ela diz que a equipe testou 31 filhotes até meados de abril, sem evidências de contaminação das araras-azuis-de-lear.

No fim de maio, uma operação retirou 69 ararinhas-azuis de um criadouro particular em Curaçá e as levou para um centro na Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), em Petrolina (PE).

A Estação Biológica de Canudos permaneceu fechada ao público de 1993 a 2013 para permitir a regeneração das aves. Com o crescimento da população, a União Internacional para a Conservação da Natureza mudou a classificação da arara-azul-de-lear: em 2009, a espécie deixou de estar criticamente em perigo de extinção e passou a estar em perigo.

Velloso diz que o fechamento foi uma atitude acertada, ao reduzir o tráfico de animais, e antipática. "Durante 20 anos, a gente viveu em guerra com a comunidade, porque todo mundo sabia que tinha as araras, que o mundo inteiro estava falando, mas ninguém podia visitar."

Atualmente, o local recebe de 600 a 800 visitantes a cada ano, com o limite máximo de 15 pessoas por dia. Turistas estrangeiros pagam R$ 550 para acessar a reserva, e brasileiros, R$ 330. Moradores de Canudos têm gratuidade, mediante a realização de um cadastro na prefeitura.

Comentários
Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Política Livre
politica livre
O POLÍTICA LIVRE é o mais completo site sobre política da Bahia, que revela os bastidores da política baiana e permite uma visão completa sobre a vida política do Estado e do Brasil.
CONTATO
(71) 9-8801-0190
politicalivre@politicalivre.com.br
SIGA-NOS
© Copyright Política Livre. All Rights Reserved

Design by NVGO

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.