/

Home

/

Noticias

/

Mundo

/

Peru vai às urnas neste domingo escolher entre filha de Fujimori e herdeiro de Pedro Castillo

Peru vai às urnas neste domingo escolher entre filha de Fujimori e herdeiro de Pedro Castillo

Keiko tenta ser presidente pela 4ª vez com o legado do pai; Roberto Sánchez aposta nos símbolos do padrinho

Por Daniela Arcanjo/Folhapress

07/06/2026 às 09:40

Atualizado em 07/06/2026 às 11:31

Foto: Reprodução/Instagram

Imagem de Peru vai às urnas neste domingo escolher entre filha de Fujimori e herdeiro de Pedro Castillo

A candidata Keiko Fujimori foi a vencedora do primeiro turno das eleições peruanas

É um déjà vu: a veterana Keiko Fujimori, vencedora do primeiro turno das eleições peruanas, concorre à Presidência do país contra um candidato de esquerda com pouca projeção nacional que usa um sombreiro como símbolo do esquecido mundo rural que almeja representar.

Poderia ser o segundo turno das eleições que levaram Pedro Castillo ao poder, em 2021, mas a descrição acima se refere à votação deste domingo (7) no Peru, país que se acostumou a viver os mesmos impasses nos últimos anos.

O deste fim de semana opõe a filha de Alberto Fujimori, ditador que governou a nação de 1990 a 2000, e Roberto Sánchez, herdeiro do sindicalista que se manteve no poder da metade de 2021 até o fim de 2022, quando tentou dar um autogolpe pelo qual está atualmente preso.

Ao que pesquisas de intenção de voto indicam, nenhum dos dois conquistou uma maioria confortável dos eleitores. Segundo o último levantamento do Ipsos, feito nos dias 29 e 30 de maio, Keiko aparece com uma ligeira vantagem numérica em relação a Sánchez: 40,4% a 38,3%, um empate dentro da margem de erro de 2,8 pontos percentuais. O destaque, porém, vai para os brancos e nulos, que somam 21,3% no levantamento divulgado no último domingo (31).

Nenhuma surpresa aqui, considerando a crise de representatividade que, nos últimos dez anos, fez nove presidentes passarem pela Casa de Pizarro, sede do Executivo em Lima, e apenas três partidos permanecerem continuamente no Congresso de 2001 a 2021.

"Para quem mora em um país que tem um sistema político mais institucionalizado, realmente é aterrorizante não encontrar um padrão explicativo para a política", afirma Carlos Ugo Santander, professor da UFG (Universidade Federal de Goiás), sobre a dificuldade de explicar a brasileiros a crise de seu país natal.

O caos, no entanto, não é um acidente, segundo o especialista. "A precarização das instituições que fazem parte da democracia representativa é um projeto no Peru", diz.

Santander se refere tanto à falta de mecanismos de controle para formar partidos, por exemplo, quanto à taxa de informalidade profissional, uma das maiores da região. Na América do Sul, o índice do Peru (71,4%) fica atrás apenas da Bolívia (83,9%), de acordo com a OIT (Organização Internacional do Trabalho).

É esse tipo de questão material, segundo ele, que motivará o voto do peruano neste domingo —muito mais do que pautas de costume que o ultradireitista Rafael López Aliaga, terceiro colocado no pleito, tentou mobilizar no primeiro turno, em vão.

A criminalidade, que causou o ciclo de protestos responsável por derrubar a ex-presidente Dina Boluarte em outubro de 2025, é o principal problema do país para 46,8% dos eleitores, de acordo com uma pesquisa da AtlasIntel em parceria com o portal Bloomberg divulgada no mês passado. A questão fica atrás somente da corrupção, citada por 66,9% dos entrevistados.

A preocupação ajuda a explicar a crescente taxa de indecisos no pleito. Na última sexta-feira (5), um juiz aceitou o pedido de investigação contra Sánchez, acusado pelo Ministério Público de dar declarações falsas sobre o financiamento de seu partido há seis anos. Keiko, por sua vez, ficou mais de um ano presa, em 2018 e 2019, sob acusação de ter recebido subornos da Odebrecht.

Quanto à outra grande preocupação, segurança, a filha de Fujimori aposta no legado do pai, como fez nas últimas três eleições nas quais foi para o segundo turno. "Volta Fujimori, volta a ordem", diz o lema da candidata.

"Nosso país vive em um mundo de cabeça para baixo. Militares e policiais são perseguidos, cidadãos vivem atrás das grades e criminosos estão livres e prosperando", afirmou Keiko no primeiro e único debate contra Sánchez, no último domingo (31). "Desde o primeiro dia, agiremos com firmeza. Implementaremos o plano nacional de pacificação".

A aposta da presidenciável é arriscada. "Alberto Fujimori ainda é uma referência de ordem e estabilidade em um cenário de violência nos anos de 1990, mas o grande problema é que o passado também não é um paraíso", diz Santander.

Lembrado pelo combate às guerrilhas peruanas, Fujimori conduziu uma repressão que incluiu pelo menos dois massacres envolvendo civis. Devido à violência e à corrupção de seu regime, o ditador foi condenado a 25 anos de prisão e morreu em 2024 em casa, após receber um indulto humanitário.

Foi justamente o sentimento antifujimorista que a derrotou no segundo turno das últimas três eleições —ferramenta que ela tenta mobilizar contra Sánchez ao associá-lo a líderes como Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

"A história nos ensina lições valiosas sobre os caminhos a seguir e os que devemos evitar", escreveu ela no X, nesta sexta, ao descrever uma conversa com a líder opositora venezuelana e Nobel da Paz María Corina Machado. "O modelo de Chávez prometia prosperidade para todo o povo, mas acabou espalhando miséria, insegurança e expulsando milhões de venezuelanos de seu próprio país".

O antídoto de Sánchez às previsíveis críticas de Keiko foi buscar alianças com outros partidos —movimento que resultou no lançamento de um novo plano de governo a seis dias das eleições— e adotar um tom conciliador com o mercado. No último domingo, o candidato garantiu que manterá a autonomia do Banco Central, elemento-chave para a estabilidade econômica do Peru.

As promessas de conceder um indulto ao seu padrinho, Castillo, resistiram ao reposicionamento de imagem do presidenciável, assim como o plano de fazer uma nova Constituição que reconheça um Estado plurinacional, enterrando a Carta promulgada por Fujimori em 1993.

O candidato correu contra o tempo na campanha para o segundo turno, em parte eclipsada pelas denúncias de fraude vindas de Aliaga, sem comprovação. "Há uma regra muito clara em eleições. Candidatos desconhecidos têm duas tarefas: se tornar conhecido e ganhar a eleição, enquanto aquele que é conhecido precisa só ganhar", afirma Santander.

A estratégia de Sánchez foi adotar a identidade visual de Castillo, um professor rural que ainda goza de grande popularidade em setores que veem sua prisão como uma injustiça causada pela intransigência da poderosa Assembleia peruana.

Na imprevisível política da nação, até mesmo o anonimato de Sánchez pode ser vantajoso —embora precise construir uma reputação, o candidato não é associado ao caos do país como Keiko, cujo partido domina a política peruana há anos.

Comentários
Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Política Livre
politica livre
O POLÍTICA LIVRE é o mais completo site sobre política da Bahia, que revela os bastidores da política baiana e permite uma visão completa sobre a vida política do Estado e do Brasil.
CONTATO
(71) 9-8801-0190
politicalivre@politicalivre.com.br
SIGA-NOS
© Copyright Política Livre. All Rights Reserved

Design by NVGO

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.