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'Fogo amigo' de Eduardo e aliados desafia plano de Flávio de moderar discurso em 2026

'Fogo amigo' de Eduardo e aliados desafia plano de Flávio de moderar discurso em 2026

Crise com Michelle Bolsonaro é o capítulo mais recente de uma série de atritos provocados por Eduardo e aliados no exterior

Por Hugo Henud/Estadão

04/07/2026 às 07:40

Atualizado em 04/07/2026 às 11:21

Foto: Reprodução/Redes scoais

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Os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro

A saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher foi apenas o estopim de uma crise que expõe a dificuldade de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para unir o bolsonarismo e tentar ocupar um espaço mais moderado na disputa presidencial de 2026. O episódio trouxe à tona uma sequência de atritos alimentados pelo que a ex-primeira-dama classificou como “grupo do exterior”, que tem no deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, seu principal rosto político.

A atuação desse núcleo abriu frentes de conflito que vão da pressão por sanções e tarifas impostas pelos Estados Unidos a desgastes envolvendo o Pix, declarações contra o voto feminino, embates com nomes da própria direita e movimentos em torno da escolha do vice na chapa.

Na semana passada, Michelle tornou o conflito público ao divulgar um vídeo de quase 30 minutos em que acusou Flávio de tê-la “humilhado” e de tentar excluí-la das decisões políticas do partido. A ex-primeira-dama também apontou como estopim para o pronunciamento uma atuação coordenada contra sua trajetória política e sua vida pessoal, atribuída ao entorno bolsonarista instalado fora do País. Esse entorno, chamado por Michelle de “grupo do exterior”, inclui nomes como Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos, Alexandre Ramagem e Oswaldo Eustáquio.

Aliados ouvidos pelo jornal O Estado de São Paulo afirmam que a atuação desse núcleo, muitas vezes sem alinhamento com a coordenação da pré-campanha de Flávio e com o próprio senador, dificulta a estratégia desenhada para 2026.

Para essa ala mais pragmática, a campanha deixou de lidar apenas com ataques de adversários e passou a administrar ruídos produzidos pelo próprio campo bolsonarista.

A avaliação é que esses episódios ampliam a exposição do presidenciável a temas de alta rejeição e o empurram de volta para a direita ideológica, justamente quando o senador tenta se apresentar como um nome mais moderado, dialogar com o centro e reduzir resistências em segmentos nos quais Jair Bolsonaro foi derrotado em 2022, como o público feminino.

Esse público é apontado por pesquisas como um dos principais desafios da campanha de Flávio e voltou ao centro da crise após Paulo Figueiredo afirmar que mulheres “votam muito mal”. No mesmo vídeo, ele criticou a postura de Michelle, então presidente do PL Mulher, justamente no momento em que o senador tenta atrair o voto feminino e reduzir a rejeição histórica do clã Bolsonaro nesse segmento. Na sequência, Flávio disse “repudiar veementemente” a fala de Figueiredo.

Para a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), a reação de Flávio foi importante para deixar claro que a pré-campanha não endossa falas consideradas radicais, especialmente em um tema sensível como o voto feminino. A parlamentar lembra ainda que o senador já tentou conter outras crises internas ao defender publicamente a unidade do campo bolsonarista. “Ele fez questão de se posicionar pela gravidade do assunto. Como ele disse, não estava respondendo ao Paulo, estava respondendo às mulheres”, afirma.

A tentativa de isolar a fala de Figueiredo, porém, não encerra o desgaste com Michelle dentro do próprio bolsonarismo. As críticas à ex-primeira-dama não ficaram restritas a ele nem a Eduardo. Em uma live, Alexandre Ramagem e Allan dos Santos, que já vinham cobrando publicamente uma participação mais ativa dela em favor da pré-candidatura de Flávio, voltaram a questionar sua postura após a divulgação do vídeo. Na mesma linha, Oswaldo Eustáquio também engrossou as críticas à ex-primeira-dama. Ramagem e Allan vivem nos Estados Unidos, enquanto Eustáquio está na Espanha. Os três são alvos de decisões judiciais no Brasil e considerados foragidos pela Justiça.

A crise em torno de Michelle, no entanto, é apenas o capítulo mais recente de uma sequência de desgastes provocados pela atuação do grupo instalado no exterior. Em janeiro, Flávio já havia ligado para Eduardo e pedido que o irmão maneirasse nas críticas ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), alvo de cobranças por uma suposta falta de engajamento na pré-candidatura do senador. Meses depois, o senador voltou a atuar como bombeiro de crises internas após uma troca pública de críticas entre Eduardo e Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais nomes do PL.

Antes disso, no ano passado, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo defenderam as medidas do governo Donald Trump sobre o Brasil em meio ao julgamento de Jair Bolsonaro no STF por tentativa de golpe de Estado. A ofensiva incluiu tarifaço contra produtos brasileiros, revogação de vistos de ministros do Supremo e aplicação da Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes. As medidas, defendidas por Eduardo como forma de pressionar a Corte, foram exploradas pelo Planalto e por Lula sob o discurso da ingerência estrangeira e da defesa da soberania nacional. Após reagir nas pesquisas, o presidente chegou a chamar o filho do ex-presidente de “camisa 10” do governo.

Parte dessas medidas acabou revertida. A trégua, porém, foi parcial. Em junho, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, desta vez com base em críticas a práticas comerciais do País, entre elas o funcionamento do Pix.

A modalidade de pagamento virou um novo ponto de desgaste depois que Eduardo sugeriu que o governo brasileiro usasse sistemas financeiros americanos “semelhantes ao Pix” como elemento de negociação com Washington. A declaração abriu mais uma frente de ruído para a pré-campanha do irmão.

A discussão sobre a montagem da chapa de Flávio também passou pelo grupo no exterior. Em junho, Eduardo defendeu publicamente o nome da deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) para a vaga de vice do irmão na disputa presidencial. O movimento foi acompanhado por aliados do deputado.

A defesa do nome de Zanatta não foi bem recebida por uma ala mais pragmática do partido, que avalia que a escolha da vice deveria ajudar a reduzir resistências ao sobrenome Bolsonaro e ampliar pontes com o centro, com a aposta em um perfil mais técnico, como o da ex-presidente da Caixa Daniella Marques.

Para integrantes desse grupo, a sequência de atritos reforça a percepção de que Flávio tem sido obrigado a reagir, explicar ou contornar movimentos que não partiram diretamente de sua coordenação. Esses interlocutores veem a viagem já programada do senador aos Estados Unidos, na próxima semana, como uma oportunidade para alinhar o discurso com Eduardo e pessoas próximas ao irmão. Mesmo sem cargo formal na coordenação da campanha, as manifestações do deputado cassado e de aliados no exterior, dizem, acabam sendo associadas à candidatura e, por isso, precisam estar em sintonia com a estratégia definida pelo presidenciável.

Reservadamente, integrantes dessa ala mais pragmática dizem ainda que o grupo vive uma espécie de “mundo paralelo”: apesar de numericamente pequeno, mantém influência nas redes sociais e tem capacidade de produzir ruído político em torno da pré-campanha.

A ala mais ideológica, por sua vez, contesta a avaliação de que sua atuação atrapalha Flávio e cita como exemplo positivo a agenda do senador em Washington. No fim de maio, o pré-candidato esteve nos Estados Unidos ao lado do irmão, Eduardo Bolsonaro, e se reuniu com Donald Trump. Na sequência, o governo americano anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.

Na avaliação dessa ala, o episódio ajudou a deslocar, ao menos momentaneamente, o foco de crises que vinham atingindo Flávio, incluindo questionamentos sobre sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em torno do financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, teria rendido ganhos políticos ao senador na área de segurança pública, uma das apostas centrais da pré-campanha.

Procurado, Paulo Figueiredo disse que a resposta estava em uma live do programa que faz no Youtube e no qual ele volta a tratar da defesa de que mulheres votam mal, diz que ninguém vai patrulhar seus comentários e afirma que Flávio não perderá a eleição por isso. Eduardo Bolsonaro não foi encontrado para se manifestar.

O líder da oposição na Câmara dos Deputados, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), também contesta a leitura de que o grupo no exterior atrapalhe a candidatura de Flávio. Segundo ele, cada integrante do bolsonarismo tem liberdade para se manifestar e eventuais divergências públicas não significam prejuízo à estratégia do senador. “Cada um se manifesta como quiser e não vejo que isso atrapalhe”, diz.

A disputa entre essas leituras resume o dilema enfrentado por Flávio na tentativa de herdar o bolsonarismo sem ficar restrito à sua ala mais ideológica. Para o professor do Insper Leandro Consentino, a tensão entre as alas do bolsonarismo expõe um dilema comum a candidaturas que tentam suceder lideranças de alta polarização: manter a base mais radical engajada sem ficar aprisionado a discursos que ampliam a rejeição no eleitorado moderado. No caso de Flávio, esse desafio é agravado pelo fato de parte dos ruídos vir do próprio núcleo bolsonarista, incluindo aliados próximos de Jair Bolsonaro e integrantes da família.

“O desafio é manter essa base mais radical mobilizada, mas, ao mesmo tempo, fazer sinalizações ao centro. No fim, é esse eleitorado mais moderado que pode garantir a vitória para um dos lados”, afirma Consentino.

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