/

Home

/

Noticias

/

Brasil

/

Marina Silva condena união de siglas para driblar cotas e diz que regra não é favor partidário

Marina Silva condena união de siglas para driblar cotas e diz que regra não é favor partidário

Ex-ministra do Meio Ambiente vai fazer palanque com PT, uma das siglas que tenta burlar a regra

Por Juliana Arreguy/Folhapress

05/07/2026 às 07:40

Atualizado em 05/07/2026 às 11:16

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Arquivo

Imagem de Marina Silva condena união de siglas para driblar cotas e diz que regra não é favor partidário

A ex-ministra Marina Silva é pré-candidata ao Senado pela Rede em São Paulo

Marina Silva, 68, diz ser inaceitável que partidos de polos opostos na política possam se unir na tentativa de driblar as cotas de distribuição mínima do fundo eleitoral às candidaturas de mulheres e negros.

Pré-candidata ao Senado pela Rede em São Paulo, ela observa que as regras da Justiça Eleitoral, que definem que ao menos 30% do fundo eleitoral dos partidos devem servir para as campanhas das minorias "não são concessões, nem favor partidário". Uma das siglas que tenta burlar a cota, como noticiado pelo jornal Folha de São Paulo, é o PT, com quem Marina fará palanque nestas eleições.

"É especialmente inaceitável que partidos de diferentes campos políticos se unam para flexibilizar justamente mecanismos criados para ampliar a participação de quem historicamente foi excluído da política", disse ela à reportagem.

Ex-ministra do Meio Ambiente e hoje deputada federal, Marina vai encarar a campanha ao Senado para fortalecer o palanque do presidente Lula (PT) em São Paulo, assim como fez há quatro anos.

Na chapa, tanto ela como Simone Tebet (PSB) disputarão as duas vagas ao Senado, enquanto Fernando Haddad (PT) será o candidato ao governo estadual e Márcio França (PSB), o candidato a vice. A composição, anunciada ao fim de junho, deu fim a especulações de que Marina poderia deixar a disputa ou sair como vice de Haddad.

A agenda ambientalista, pela qual dedica sua vida pública, seguirá como a sua prioridade. Questionada sobre o que mais poderia oferecer, a resposta foi firme: "E quem disse que o meio ambiente não contempla as demais questões?"

Em relação às fake news e o uso de deepfakes, qual será o maior desafio da campanha?

É poder fazer com que os processos orgânicos, não artificiais, prevaleçam. Não estou negando a tecnologia, mas o conteúdo enviado à população deve ter base de realidade, e não da invenção de narrativas. Atualizar a linguagem é estar disposto a conversar com jovens, com quem tenta se informar de outras formas, que buscam novas estéticas para os conteúdos políticos. Política, ética e estética nunca deveriam se separar.

Já que a sra. citou os jovens: como formar novas lideranças na esquerda, já que o campo progressista tem enfrentado dificuldades em apresentar novos quadros?

Acho que temos novos quadros: Fernando Haddad, Simone Tebet, Renan Filho… Mas se não tivermos projetos políticos que sejam capazes de suscitar nos jovens essa atração, fica difícil chamar para a política. O mundo vive um processo muito desafiador, não é só o Brasil. A gente vive o imediatismo político, que é um terreno muito propício ao populismo. É uma visão que vai pelo caminho mais fácil de prometer o que às vezes não tem condição de cumprir ou de criar bodes expiatórios para dizer que o problema foi resolvido.

A sra. considera o presidente Lula populista?

Populismo é dizer coisas que não são possíveis de entregar, de vender falsas soluções. Eu não acho que o Bolsa Família, por exemplo, seja uma falsa solução. Tirar o Brasil do mapa da fome, ser capaz de isentar pessoas que ganham até R$ 5.000 de ter que pagar imposto, isso não é populismo, isso é justiça.

Governistas reclamam de pautas travadas no Congresso e dos custos das emendas. O que é necessário mudar?

A visão e a postura no momento da escolha: quem são as pessoas que respeitam a Constituição? A execução do orçamento público é uma atribuição constitucional do Executivo, que vai sendo cada vez mais subtraída por emendas que não ligam lé com cré e são mais destinadas a amealhar votos –aí, sim, de forma populista–, e por não serem executadas de forma transparente, são desviadas para finalidades antirrepublicanas.

Como enxerga o Congresso hoje em relação a 1995, quando foi eleita senadora pela 1ª vez?

Para quem teve a oportunidade de ouvir reclamações da qualidade do Congresso de pessoas como Pedro Simon, Artur da Távola, Darcy Ribeiro, [Eduardo] Suplicy, Benedita da Silva, e mesmo divergindo, Antônio Carlos Magalhães, José Sarney e Jader Barbalho, eu diria que eles não sabiam o que vinha pela frente.

O que falta na interlocução da esquerda com alguns setores religiosos, em especial os evangélicos?

Acho que essa falta não é só para o campo democrático, é para todos os partidos políticos, mesmo aqueles que contam numericamente com uma grande quantidade de intenções de voto de pessoas cristãs. Temos que tratar evangélicos, católicos, pessoas de religiões de matriz africana e aqueles que não professam nenhuma fé como cidadãos. Somos um Estado laico, em que as políticas públicas devem ser para todos.

Às vezes você peca ou por querer fazer uma assepsia da fé em um país que tem mais de 80% da população se declarando cristã, ou tentando fazer a instrumentalização dessa fé. As duas formas são equivocadas. No campo democrático, desde 2018, essa sinalização começou a piscar. E há um esforço muito grande de entender isso, mas a gente não precisa de Fla-Flu religioso quando você respeita o Estado laico.

O que fazer no caso de temas polêmicos como o aborto?

Evitar a instrumentalização de um tema tão complexo. Nenhuma mulher faz aborto porque quer fazê-lo como um método contraceptivo. São circunstâncias muitas vezes dolorosas, extremas, que levam uma pessoa a abortar. As religiões que trabalham com a ideia do amor, da compaixão e do respeito procuram ser coerentes com aquilo que são os ensinamentos bíblicos, mas não fazem essa instrumentalização. E na política não é o lugar de fazer. Tenho essa postura desde sempre e ela é colocada como uma forma de me indispor com o público evangélico, porque sempre busco o caminho da mediação. É um debate que sempre defendi que deveria ser submetido a um plebiscito.

Para além da agenda do meio ambiente, o que mais defenderá na campanha?

E quem disse que o meio ambiente não contempla as demais questões? Como se fosse possível ter desenvolvimento econômico sem água, agricultura sem terra fértil. Dentro de uma visão integrada de economia e ecologia, é possível pensar políticas públicas que sejam geradoras de emprego, renda, avanço tecnológico e justiça social. Os empresários sabem que, para poder competir em mercados cada vez mais exigentes, é necessário dar uma resposta para as mudanças climáticas.

São Paulo é um grande produtor de etanol e pode ser a solução para o transporte, tanto no caso da aviação quanto do transporte marítimo. Podemos ser o estado capaz de atrair os investimentos para a nova indústria de carros elétricos, de produção de baterias, pás eólicas e hidrogênio verde.

A sra. vê maior atenção às pautas ambientais por causa dos desastres climáticos?

Com certeza. É o que eu chamo de pedagogia do luto. Se tivéssemos governos com visão antecipatória, que desde 1992 [na Conferência da ONU, no Rio de Janeiro] foram alertados, hoje não estaríamos aprendendo por essa pedagogia dolorosa. Em São Paulo, 140 municípios são suscetíveis a eventos climáticos extremos [são 173 municípios, segundo lista do Ministério da Casa Civil].

Desde 2014, vivemos crises hídricas em São Paulo. A situação se agravou, principalmente com a privatização da Sabesp. Os sistemas estão colapsando e, não por acaso, várias caixas d'água estão explodindo, levando vidas, por causa de intervenções da empresa que faz os serviços pensando mais em dinheiro do que na vida das pessoas.

Nós não temos uma ação voltada para a qualidade do transporte, para que as pessoas tenham que usar menos o carro. Além de gerar uma cidade colapsada em termos de mobilidade, continua poluindo e criando graves problemas de saúde pública.

O que falta para as mulheres conseguirem mais espaço na política?

Mudar as estruturas que levam as mulheres a serem minoria na política. Só que, para que essas estruturas mudem, é preciso ter mais mulheres na política. Veja que é um paradoxo. Tudo leva à nossa exclusão.

Inclusive dentro dos partidos, não?

É. Existem partidos que conseguiram ter mais mulheres dentro das estruturas de direção, e isso faz a diferença porque, quando elas estão presentes, as exigências para ampliar esses espaços conseguem ser mais ouvidas. Isso não os torna isentos de reclamação. Na prática, é sempre mais difícil. Nós não queremos só o direito de concorrer em quantidade.

É uma redundância: no dia em que não for mais necessário ter cotas, nós já estaremos participando do processo em completa igualdade de condição. Hoje nós somos 50% da população com apenas 18% de representação no Congresso.

O que acha da tentativa de siglas que vão do PT ao PL de tentarem driblar as cotas para mulheres e negros?

É um retrocesso grave e precisa ser enfrentado com firmeza. Essas regras não são concessões, nem favor partidário, e sim instrumentos mínimos de correção de desigualdades históricas que ainda limitam a presença de mulheres, pessoas negras e indígenas nos espaços de poder.

A democracia brasileira só se aprofundará quando sua representação política se parecer mais com a população brasileira. Burlar essas cotas significa perpetuar estruturas que concentram poder, recursos e visibilidade nas mãos dos mesmos grupos de sempre. É especialmente inaceitável que partidos de diferentes campos políticos se unam para flexibilizar justamente mecanismos criados para ampliar a participação de quem historicamente foi excluído da política.

É preciso garantir condições reais de disputa: financiamento, tempo, estrutura e respeito. Essas cotas existem porque a desigualdade existe. Enquanto ela persistir, enfraquecer esses instrumentos é trabalhar contra a renovação, contra a diversidade e contra a própria democracia.

Pensa em se candidatar mais uma vez à Presidência da República?

Eu já dei a minha contribuição, fui candidata três vezes, estou na política desde 1986 e me sinto muito agradecida a Deus, ao povo do Acre, ao povo brasileiro e ao povo paulista por todas as oportunidades que tive de poder atuar na política institucional.

Comentários
Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Política Livre
politica livre
O POLÍTICA LIVRE é o mais completo site sobre política da Bahia, que revela os bastidores da política baiana e permite uma visão completa sobre a vida política do Estado e do Brasil.
CONTATO
(71) 9-8801-0190
politicalivre@politicalivre.com.br
SIGA-NOS
© Copyright Política Livre. All Rights Reserved

Design by NVGO

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.