Morre Rick, da dupla com Renner, aos 59 anos, após queda de helicóptero
Artista era uma das vozes de 'Ela É Demais', hit dos anos 1990
Por Lucas Brêda/Henrique Artuni/Folhapress
22/09/2026 às 17:00
Foto: Divulgação
O músico Rick, da dupla sertaneja Rick e Renner
Morreu, aos 59 anos, o cantor sertanejo Rick Sollo, ou apenas Rick, da dupla com Renner, uma das vozes do hit "Ela é Demais" e de outros sucessos do gênero nos anos 1990. A informação foi confirmada nesta terça-feira (22), pelo Corpo de Bombeiros.
Rick estava entre os passageiros de um helicóptero que partiu de Porto Belo, no litoral catarinense, até que perdeu contato na região de Urubici, a cerca de 175 km de Florianópolis. O empresário e palestrante Bruno Avelar, especialista em networking, também estava na aeronave.
O Corpo de Bombeiros localizou os destroços do veículo nesta manhã e afirmou que não há sobreviventes —cinco pessoas morreram, ao todo.
Rick deixa a mulher, Geralda Carvalho, homenageada na canção "Perfeição" e com quem convivia há 30 anos, seis filhos e dois netos.
Nascido em dezembro de 1966 na cidade de Monte do Carmo, no Tocantins, Geraldo Antônio de Carvalho se mudou com a família para Brasília ainda aos seis anos. Rick depois cantou sobre esse período de sua vida na música "Eu, Ela e Deus", em que descreve "uma estrada sem porteira/ Uma casinha de madeira/ Uma porta e uma janela".
Influenciado pela veia musical do pai, Vitor Antônio, que compunha canções de Folia de Reis, deu seus primeiros passos na música ainda na infância, cantando ao lado da irmã Dalva em bares, como a dupla infantil Sereno e Serenata.
Mas a parceria foi rompida pelo próprio pai, com medo do ambiente perigoso de algumas casas noturnas. Obstinado em seguir o caminho artístico, Geraldo encontrou outras parcerias na noite, quando, com uma delas, adotou o nome de Rick, inspirado por um dos integrantes da boy band Menudo.
O encontro com Renner Reis foi ao acaso —pelo telefone. Em 1986, ao ligar para uma casa noturna para pedir um equipamento emprestado, Rick ouviu a voz de Ivair dos Reis Gonçalves do outro lado da linha. Ficou curioso pelo seu timbre e decidiu conhecê-lo. A química uniu abordagens diferentes —o cancioneiro popular trazido por Rick e o apelo urbano do rock nacional apreciado por Renner, que tocava desde os 14.
Foram cinco anos cantando juntos em bares até a gravação do primeiro disco independente, em 1989, "Atitudes", com composições autorais. Diferente do que ficou conhecido nacionalmente depois, neste primeiro trabalho, Renner é quem fazia a primeira voz e Rick, a segunda.
O álbum chamou a atenção de Zezé Di Camargo e Luciano, que fizeram a ponte com o produtor Manuel Nenzinho Pinto. O contato rendeu o LP "Rick & Renner", de 1992, pela gravadora Chantecler, com músicas como "Você Decide", "Olhando nos Teus Olhos" e "Mal de Amor".
Mudaram-se para São Paulo e seguiram gravando mais álbuns ao longo da década, até o momento de maior sucesso, em 1998, com o CD "Mil Vezes Cantarei", o sexto disco da dupla. Na ocasião, a faixa "Ela É Demais", composta por Elias Muniz, ficou nas paradas de sucesso por cinco meses consecutivos.
Rick e Renner foram uma das grandes duplas da música sertaneja na década de 1990, quando o gênero absorveu influências urbanas e se tornou um dos mais ouvidos do Brasil. Os dois lançaram quatro álbuns na década —"Volume 2", de 1994, "Volume 3", de 1997, e "Instante Mágico", de 1999, além do disco de estreia e de "Mil Vezes Cantarei". São deles sucessos como "Cara Metade", "Baby", "Saudade Pesada", "Fim de Semana", "Muleca" e "Paixão de Peão", entre outros.
Reconhecido como cantor, Rick também foi um compositor profícuo, autor de boa parte do repertório da dupla e gravado pelos maiores nomes da música sertaneja. Ele registrou 661 músicas no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, e parte delas continua sendo gravada até hoje por nomes como Luan Santana e Gusttavo Lima.
Rick escreveu dois dos maiores hits de João Paulo & Daniel, "Só Dá Você na Minha Vida" e "Hoje Eu Sei", em 1994 e 1995, mesmo período em que fez "Página de Amigos", sucesso na voz de Chitãozinho e Xororó. Também é um dos autores de "Agenda Rabiscada", famosa primeiro com Cleiton e Camargo e depois com Milionário e José Rico. Boa parte delas foi feita em parceria com Alexandre, da dupla Althair & Alexandre.
Após a morte de João Paulo, dupla com Daniel, em 1997, Rick passou a ser um dos únicos negros entre os cantores famosos da música sertaneja. Ele se lembrou de casos em que sofreu racismo e comentou a situação em entrevista ao jornalista André Piunti no YouTube, em 2021.
"Tem um lado bom nessa história toda. Quando falam ‘qual é aquela dupla que tem um negão?’, sou eu", disse Rick. "Vivi, sim, situações de preconceito, não vou esconder. Assim como o João Paulo viveu. Nós falamos sobre isso. Acredito que ele tenha vivido mais até do que eu, porque ele era mais escuro".
Apesar de falar majoritariamente sobre romances em suas canções, Rick, na década de 2000, foi o autor dos principais sucessos da dupla Gino & Geno falando sobre costumes caipiras —como em "Pescaria", que descreve a prática— e explorando o humor. Ele assina "Bebo Pa Carai", "Jeito Caipira", "Churrasco de Paixão", "Mulher Que Não Dá Voa" e "Sou Feio Mas Tô na Moda", entre outras.
Cantando desde os anos 1960, Gino & Geno haviam praticamente largado a música, mas foram resgatados por Rick, que compôs a maior parte do novo repertório da dupla e também os produziu. Ele trabalhou em todos os discos que reergueram a carreira dos dois neste século, a partir de "Coração Cigano", de 2000.
Apesar dos sucessos, Rick e Renner tiveram alguns desentendimentos. Separaram-se pela primeira vez no início de 2011, quando lançaram o CD de despedida "Happy End". Nesse mesmo ano, Rick lançou seu primeiro disco solo, "Pronto pra Te Amar".
Retomaram as atividades em setembro do ano seguinte com o disco "Inacreditável o Poder do Amor" e voltaram a se dividir em janeiro de 2015. O estopim da separação foi a detenção em flagrante de Renner por dirigir bêbado, no final do ano anterior.
Renner já havia sido condenado, em 2007, a pagar uma indenização de cerca de R$ 1,4 milhão por danos morais e materiais aos familiares de uma vítima de acidente fatal envolvendo o cantor na rodovia Luiz de Queiroz, em Santa Bárbara d’Oeste, em São Paulo. O caso ocorreu em 2001, quando Renner perdeu o controle de seu carro e bateu de frente com uma moto. O casal que estava na moto —o engenheiro químico Luís Antônio Nunes e Eveline Soares Rossi— morreram na hora.
Após a segunda separação, há 11 anos, Rick disse ter "perdido as contas de quantas vezes" deu conselhos ao parceiro. "Vou ajudar o Renner em tudo que eu puder, que tiver ao meu alcance. Mas tenho filhos, tenho netos e uma vida passando depressa. Deus sabe o quanto lutei por Rick e Renner. Mas hoje afirmo com toda certeza que só vou até aqui", escreveu.
Pouco mais de seis meses depois, Rick lançou "Foi Deus", com dez músicas inéditas, regravações e participações especiais. O álbum trouxe algumas composições do artista mais voltadas à espiritualidade, incluindo uma colaboração com o padre Fábio de Mello.
A dupla estava junta novamente desde agosto de 2018, num anúncio feito no Domingão do Faustão, que resultou na turnê comemorativa "Seguir em Frente".
Em 25 anos de carreira, Rick e Renner venderam mais de 10 milhões de CDs, segundo informações do site oficial de Rick. No Spotify, eles têm atualmente mais de 3 milhões de ouvintes mensais.
Os dois haviam se apresentado em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, e Sorriso, em Mato Grosso, na semana passada, e tinham shows comemorativos dos 40 anos de formação da dupla marcados para cidades como Belo Horizonte e Araçatuba, no interior paulista, nos próximos meses.
