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Organização ligada à CIA vai treinar e financiar funcionários do Banco Mundial no Brasil
Organização ligada à CIA vai treinar e financiar funcionários do Banco Mundial no Brasil
Banco diz que contratados não terão vínculo com entidade focada em segurança nacional
Por Patrícia Campos Mello/Folhapres
22/09/2026 às 18:02
Foto: Grant Ellis/Banco Mundial/Divulgação
Sede do Grupo Banco Mundial em Washington, capital dos EUA
O Banco Mundial assinou um contrato com a NobleReach, organização ligada à CIA (Agência Central de Inteligência, semelhante à Abin), para enviar oito funcionários norte-americanos para os escritórios do banco no Brasil, Panamá e Colômbia.
Os funcionários serão pagos com recursos da entidade, que passou por uma fusão com uma subsidiária da agência de inteligência americana em 2022. A NobleReach também treinará e oferecerá mentoria aos funcionários enviados para o Banco Mundial na América Latina.
A organização, que descreve a própria missão como defesa da "segurança nacional e econômica" dos Estados Unidos, tem contratos com a NSA (Agência Nacional de Segurança) e com o Departamento de Defesa do país.
O Banco Mundial afirmou em nota que o programa de talentos é semelhante a outras iniciativas de empresas ao redor do mundo, e reiterou que os participantes estarão sujeitos às regras do banco, sem ligação com a entidade doadora. A NobleReach foi questionada, mas não respondeu à reportagem.
Em 2022, a NobleReach fundiu-se com a IQT Emerge, subsidiária da In-Q-Tel. A In-Q-Tel é o braço de venture capital, setor de investimento voltado a empresas de estágio inicial, da CIA.
A fundação firmou, em 2025, parceria com a NSA, a agência de segurança nacional dos EUA envolvida em casos de espionagem também no Brasil, para recrutar jovens para trabalhar na área de inteligência. O contrato tem teor semelhante ao da entidade com o Departamento de Defesa americano.
Já com a Darpa, a agência de pesquisas avançadas do Pentágono, a NobleReach tem um acordo para desenvolvimento de tecnologia de uso dual, civil e militar. A organização é membro-fundador da Tech Force da Casa Branca, que visa contratar especialistas em cibersegurança, inteligência artificial e software para trabalhar em cargos ligados à segurança nacional no governo americano.
"O trabalho da NobleReach aumenta a confiança entre governo, indústria e academia, e é essencial para a dominância dos EUA na competição de ameaças globais", diz no site da organização Victoria Virasingh, vice-presidente sênior de alianças estratégicas da NobleReach. A organização tem ativos de US$ 448 milhões (R$ 2,3 bilhões) segundo dados do imposto de renda americano compilados pela ProPublica.
Segundo o contrato entre o Banco Mundial e a NobleReach, obtido pelo jornal Folha de São Paulo, a organização financiará funcionários da organização internacional no Brasil, Panamá e Colômbia por meio de uma doação de US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões) ao fundo truste (que passa a administração de bens para um terceiro) da instituição.
O acordo gerou estranhamento entre funcionários do banco, já que a instituição costuma receber doações de governos, não de organizações, e com foco em desenvolvimento e clima, não em segurança nacional.
O foco da In-Q-Tel e da IQT Emerge, absorvida pela NobleReach em 2022, é investir em tecnologias de uso duplo –comercial e para segurança nacional– que sejam estratégicas para a CIA e agências de inteligência dos EUA. A In-Q-Tel foi uma das primeiras investidoras da Palantir, a gigante de IA e vigilância que é uma das maiores fornecedoras do Departamento de Defesa americano.
A NobleReach funciona como catalisador de talentos para contratação pelo Pentágono, CIA e NSA. Mas, por meio da NobleReach Emerge, também atua em projetos considerados estratégicos para segurança nacional americana –como o de verificação autônoma de cabos submarinos com a gigante de defesa Anduril.
As vagas da parceria entre World Bank Explorer Program e a NobleReach Scholars são exclusivas para cidadãos americanos. São duas vagas em Brasília, duas em São Paulo, duas no Panamá e duas na Colômbia. As vagas são para áreas de análise financeira, infraestrutura e administração.
No site institucional, a NobleReach afirma que o programa de bolsas "oferece um caminho único e estruturado para que talentos emergentes em ciência e tecnologia sejam empregados na comunidade de inteligência dos EUA, incluindo conexões diretas para empregos na NSA e intersecções com a CIA".
O banco não especifica se os funcionários trabalharão em projetos de minerais críticos e infraestrutura de tecnologia. Também não consultou previamente o governo brasileiro sobre o envio dos funcionários ligados à fundação. O Palácio do Planalto foi procurado pela reportagem, mas não respondeu.
