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Rendimentos de títulos globais disparam com petróleo acima de US$ 100 e temor de inflação
Rendimentos de títulos globais disparam com petróleo acima de US$ 100 e temor de inflação
Papéis dos EUA atingem maior patamar em 20 anos com expectativa de juros elevados em meio à guerra
Por Matheus dos Santos/Folhapress
10/09/2026 às 19:45
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil/Arquivo
Alta do petróleo Brent, referência global, saltou 7%, para US$ 108,42 por barril
A alta do petróleo e novos sinais de inflação persistente reacenderam uma onda global de venda de títulos nesta quinta-feira (10), pressionando os mercados de renda fixa nos Estados Unidos e na Europa e levando os rendimentos dos papéis a máximas de quase 20 anos.
O movimento de maior cautela foi impulsionado pela alta do petróleo Brent, referência global, que saltou 7%, para US$ 108,42 por barril, maior nível desde maio. O WTI (West Texas Intermediate), referência nos Estados Unidos, subiu em proporção semelhante, para US$ 103,08 por barril.
O temor de uma inflação mais elevada aumenta o prêmio exigido pelos investidores para manter títulos públicos. Com a venda dos papéis, seus preços recuam e, como preços e rendimentos se movem em direções opostas, as taxas de rentabilidade sobem.
Durante o dia, os títulos do Tesouro dos Estados Unidos atingiram os maiores rendimentos em quase duas décadas. A taxa do papel de 30 anos chegou a 5,35%, alta de até 7 pontos-base e maior nível desde junho de 2007. A do título de 10 anos alcançou 4,95%, avanço de 11 pontos-base e maior patamar desde outubro de 2023.
No mercado acionário americano, as Bolsas S&P 500, Dow Jones e Nasdaq recuaram 0,58%, 0,60% e 0,65%.
O movimento também se estendeu à Europa. No Reino Unido, a taxa dos títulos de referência de 10 anos avançou 0,11 ponto percentual, para 5,38%, o maior nível desde 2007. Na Alemanha, subiu 0,06 ponto percentual, para 3,5%, maior patamar desde 2011.
"Os títulos estão sofrendo um golpe duplo: os preços do petróleo avançam gradualmente, enquanto as recompras dos EUA e os crescentes riscos à credibilidade elevam os prêmios de risco", disse Pooja Kumra, estrategista de juros da TD Securities.
O principal fator por trás do movimento foi a guerra no Irã. Nesta quinta-feira, os houthis, grupo do Iêmen aliado do Irã, anunciaram que tomaram o controle da cidade de Mocha, importante cidade para o escoamento do petróleo da Arábia Saudita.
O episódio reforça os sinais de que a escalada do conflito no Oriente Médio continua afetando o fornecimento global de energia e alimentando as pressões inflacionárias.
Nos últimos dias, o conflito entre EUA e Irã tem escalado. Na quarta-feira (9), a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter atacado dez navios e disparado mísseis balísticos contra uma base na Jordânia utilizada pelas Forças Armadas dos EUA. A ação foi uma resposta aos ataques americanos a cinco petroleiros iranianos na terça-feira (8).
Segundo o braço militar iraniano, as embarcações "tentavam atravessar uma área proibida e insegura" do estreito de Hormuz, por onde passava 20% da produção mundial de petróleo e gás antes da guerra.
Além da guerra, o desempenho dos títulos americanos foi pressionado pela reação negativa dos investidores ao plano de recompra de US$ 6 bilhões anunciado pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent.
A medida faz parte da ampliação do volume de recompras pelo Tesouro em meio às pressões inflacionárias provocadas pela alta do petróleo e ao aumento do peso da dívida pública dos Estados Unidos.
A operação de recompra aconteceu nesta quinta e totalizou US$ 5,2 bilhões em ofertas, abaixo do limite de US$ 6 bilhões. O Tesouro norte-americano informou ter recebido US$ 10,5 bilhões em ofertas, mas aceitou apenas cerca de metade desse montante. O resultado surpreendeu os operadores e não produziu o efeito esperado de reduzir os rendimentos dos títulos.
Nesta quinta, o PPI (Índice de Preços ao Produtor) acelerou para 5,4% em agosto, ante 4,7% em julho, acima das expectativas dos analistas. O indicador mede a variação dos preços recebidos pelos produtores e é acompanhado como sinal das pressões inflacionárias na economia americana.
O próximo indicador de inflação a ser divulgado é o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) de agosto, nesta sexta (11). Com a pressão nos preços, a expectativa é de uma alta dos juros na próxima reunião do Fed, marcada para a próxima semana. Segundo a ferramenta FedWatch, 71,5% das previsões apontam para uma elevação da taxa da faixa de 3,50% a 3,75% para 3,75% a 4%.
A inflação vem ficando acima da meta do Fed há 5 anos e meio. O banco central americano tem como meta uma inflação de 2%, medida pela variação em 12 meses do Índice de Preços de Despesas de Consumo Pessoal (PCE), um indicador que pode ser estimado assim que os dados do CPI e do PPI estiverem disponíveis.
Nesta semana, o presidente Donald Trump afirmou que o petróleo deve permanecer elevado pelo menos até as eleições de meio de mandato, enquanto analistas revisam para cima as projeções para a commodity em 2026 e 2027 diante da falta de sinais de um acordo entre EUA e Irã.
Na Europa, além do conflito, o Banco Central Europeu elevou os juros para 2,5% nesta quinta-feira e alertou que a inflação na zona do euro deverá "permanecer bem acima" da meta de 2% por "um período prolongado", enquanto a guerra com o Irã mantém elevados os preços da energia.
Além disso, a Arábia Saudita informou à Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) que produziu 6,2 milhões de barris por dia em agosto, o menor volume mensal de 2026 e 23% abaixo do registrado em julho, segundo relatório divulgado pelo cartel do petróleo nesta quinta-feira.
"O mercado de petróleo está corrigindo seu maior erro de precificação desde a guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022", disse Bob McNally, fundador do Rapidan Energy Group e ex-assessor de energia do ex-presidente George W. Bush. "Naquela época, o erro foi um pessimismo injustificado quanto à dimensão e à duração da interrupção; agora, é o otimismo".
Para a S&P Global Energy, os mercados de petróleo estão "se acomodando a um novo normal" de preços mais altos, à medida que diminuíam as perspectivas de uma solução definitiva para o conflito com o Irã.
Pela primeira vez desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, o grupo de pesquisa afirmou não prever que a produção de petróleo bruto do Oriente Médio retorne aos níveis anteriores à guerra até o fim de 2027.
"O mercado não está voltando à calma; está se ajustando ao novo normal definido por um conflito não resolvido e por riscos marítimos persistentes —um cenário em que os fluxos de petróleo permanecem abaixo dos níveis anteriores à guerra e o caminho à frente continua irregular", disse Jim Burkhard, vice-presidente e chefe global de pesquisa de petróleo bruto da S&P Global Energy.
