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Secretários do MEC sob Jair Bolsonaro divulgam carta de apoio à reeleição de Lula
Secretários do MEC sob Jair Bolsonaro divulgam carta de apoio à reeleição de Lula
Por Paulo Saldaña, Folhapress
28/09/2026 às 16:31
Foto: Divulgação/Arquivo
Ministério da Educação
Três ex-secretários do MEC (Ministério da Educação) do governo Jair Bolsonaro (PL) elaboraram manifesto em que apontam apoio à candidatura de Lula (PT). Titulares das subpastas durante a gestão do ministro Ricardo Vélez Rodrigues, eles fazem críticas às propostas da candidatura de Flávio Bolsonaro para a educação e falam em riscos de retrocesso.
O documento critica propostas presentes na agenda de Flávio, como militarização de escolas, métodos de ensino restritivos e uma visão da educação voltada ao mercado.
"Entre um projeto que reafirma a educação pública como direito, política de Estado e instrumento de justiça social, e outro que subordina a escola à suspeição ideológica, à disciplina autoritária e à lógica estreita do mercado, nossa escolha é inequívoca", diz o texto, que manifesta "apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva".
A Folha procurou por mensagens, às 10h55 desta segunda (28), a campanha de Flávio. Também tentou ouvir Vélez Rodríguez por mensagem e email. Não houve retorno até a publicação deste texto.
O documento é assinado por Alexandro Ferreira de Souza, Marco Antônio Barroso Faria e Bernardo Goytacazes de Araújo. Eles comandaram, respectivamente, as secretarias de Educação Profissional e Tecnológica (Setec), a de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) e a de Modalidades Especializadas. Essa última fora criada no início do governo Bolsonaro em substituição à Secadi (secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão), reestabelecida no atual governo.
Os três chegaram à pasta na cota pessoal de Vélez, de quem foram alunos na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Vélez foi o primeiro dos quatro ministros que comandaram o MEC sob Jair Bolsonaro.
Colombiano radicado no Brasil, Vélez assumiu o MEC em janeiro de 2019 e ficou na pasta somente até o início de abril.
Ele fora uma indicação do escritor e guru da direita Olavo de Carvalho, que teve influência em outros postos no ministério. Uma disputa entre diferentes alas dentro da pasta, sobretudo por ataques de olavistas, resultou na saída dele.
"Há um compromisso maior. Todos nós somos sociais-democratas, mas o compromisso ético com aquilo que se propõe é maior do que qualquer bandeira. É inegável que a educação vem melhorando e isso não pode retroceder, em hipótese alguma", diz Bernardo Goytacazes de Araújo, hoje secretário municipal de Educação em Três Rios (RS).
Bernardo afirma que não houve tempo para que o trabalho para o qual tinham sido chamados por Vélez fosse feito, por causa "do aparelhamento ideológico dentro do MEC, vindo dos olavistas".
De acordo com Alexandro Ferreira de Souza, a ida deles ao MEC perpassou "a fidelidade a um professor querido" que os incentivou durante a vida universitária. "Todos nós fomos pelo Vélez, sabendo que seria muito complicado", diz ele, que leciona na rede estadual do Espírito Santo.
Segundo Marco Antonio Barroso Faria, ainda há problemas na educação do país e há o que melhorar. "Mas é inegável que desde 1994 melhorou muito e não pode retroceder. E a gente sabe que, se o Bolsonaro ganhar, vai ser retrocesso de novo."
Segundo o documento, o plano de Flávio Bolsonaro falha ao subordinar a política pública de ensino a uma lógica pautada no combate à suposta doutrinação ideológica, na disciplina rígida e na adequação imediata às demandas do mercado de trabalho.
O texto aponta ainda um "silêncio revelador" da proposta sobre gargalos estruturais, omitindo compromissos com a valorização salarial e carreira dos professores, o financiamento equitativo e a melhoria da infraestrutura escolar.
"O documento reedita e intensifica a concepção que marcou o governo de Jair Bolsonaro: decisões centralizadas, frágil coordenação entre entes federados, suspeição sobre docentes, redução da formação à empregabilidade imediata, militarização como resposta à convivência escolar e ausência de compromissos concretos com carreira, inclusão, financiamento, infraestrutura e participação social", diz o texto.
Na Educação Profissional e Tecnológica, o manifesto critica a falta de compromissos com a Rede Federal de Institutos. Os autores também criticam plano de direcionar recursos das agências de fomento à pesquisa, como CAPES e CNPq, para o impacto produtivo.
A passagem de Vélez pelo MEC ficou marcada por paralisia e brigas ideológicas, além de falas polêmicas do titular da pasta. Ele falou que o brasileiro é um canibal que rouba aviões e hotéis e, em outra oportunidade, defendeu mudanças nos livros didáticos para mudar o entendimento sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar.
Vélez Rodriguez foi substituído em abril de 2019 por Abraham Weintraub, que acumulou ataques a universidades, professores. Weintraub ficou no cargo até 2020, e saiu após aparecer vídeo de uma reunião ministerial atacando ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).
No lugar de Weintraub assumiu o pastor Milton Ribeiro. Foi demitido no fim de março de 2022, uma semana depois de a Folha revelar áudio em que, de dentro do MEC, pedia favorecimentos a pastores ligados a Jair Bolsonaro. O então chefe de gabinete Victor Godoy Veiga assumiu a pasta e ficou no cargo até o fim do governo.
