É hora de renovar a política brasileira, por Jutahy Júnior
Por Redação
08/11/2026 às 09:40
Atualizado em 08/11/2026 às 09:40
Foto: Divulgação
Virgildásio Senna teve uma vida pública exemplar. Foi prefeito de Salvador. Fomos colegas na Câmara dos Deputados. Homem de convicções firmes e profunda compreensão da vida política, repetia à exaustão uma verdade que, embora óbvia, continua sendo sistematicamente ignorada:
“A eleição é um processo de dupla checagem. Primeiro, os partidos escolhem os candidatos. Só depois, os eleitores escolhem em quem votar.”
Essa constatação deveria estar no centro de qualquer debate sério sobre a qualidade da representação política brasileira.
Quando se criticam as más escolhas dos eleitores, frequentemente se esquece a responsabilidade anterior e decisiva dos partidos. São eles que selecionam os nomes oferecidos à sociedade. E é justamente nessa primeira etapa que se revela uma das maiores deformações da nossa democracia.
A irresponsabilidade partidária na seleção de candidatos salta aos olhos. Em vez de compromisso programático, coerência ideológica, preparo e espírito público, prevalece a busca por candidatos capazes de conquistar votos e atender aos interesses dos donos das legendas.
O pragmatismo eleitoral chegou a tal extremo que a identidade do candidato com o programa e os princípios do partido tornou-se, muitas vezes, irrelevante. O resultado é o enfraquecimento da representação, a desmoralização das instituições e o crescente distanciamento entre a sociedade e a política.
Chegou a hora de encarar o futuro.
A vitória de Lula e a segunda derrota do bolsonarismo representam uma oportunidade para o encerramento de um ciclo da política brasileira. Abre-se uma porta para o surgimento de novas lideranças nacionais, em todos os campos políticos: na esquerda, no centro e na direita.
O Brasil precisa dessa renovação. Não de uma simples troca de personagens, mas de uma transformação profunda das práticas políticas e dos mecanismos institucionais.
É hora de fortalecer nossas instituições, corrigir suas deformações e mudar aquilo que se tornou anacrônico.
O sistema de voto proporcional para as eleições legislativas dá sinais inequívocos de esgotamento e precisa ser profundamente revisto. O modelo de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal também exige uma reforma que fortaleça a legitimidade, a independência e a credibilidade da Corte.
As oligarquias instaladas nos três Poderes da República precisam ser enfrentadas. Não podemos continuar aceitando que instituições criadas para servir à sociedade sejam apropriadas por grupos que se perpetuam no poder e confundem o interesse público com seus próprios interesses.
Nenhuma dessas mudanças será duradoura sem transparência, participação popular, responsabilidade política e instituições verdadeiramente comprometidas com o interesse nacional.
A democracia brasileira não precisa de menos política. Precisa de uma política melhor. Não precisa de salvadores da pátria, mas de instituições fortes, partidos responsáveis e lideranças comprometidas com a República.
O caminho para superar as deformações da democracia não é restringi-la, mas aprofundá-la.
Mais transparência. Mais responsabilidade. Mais participação. Jutahy Magalhães Junior.
*Jutahy Magalhães Júnior, nascido em Salvador, em 14 de outubro de 1955, é advogado formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e político filiado ao PSDB. Filho do ex-deputado Jutahy Magalhães e neto do ex-governador Juracy Magalhães, construiu uma trajetória de longa atuação na política baiana e nacional. Foi deputado estadual, deputado federal por oito mandatos, secretário estadual da Justiça e Direitos Humanos durante o governo Waldir Pires e ministro do Bem-Estar Social no governo Itamar Franco, entre 1992 e 1993. Também exerceu a liderança nacional do PSDB por quatro vezes e disputou o governo da Bahia em 1994, quando terminou em terceiro lugar. Em 2018, concorreu ao Senado, mas ficou na quarta colocação, com cerca de 8% dos votos válidos.
