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Peña renunciou para não ser preso e vice é parte da equipe que roubou Paraguai, diz opositor

Peña renunciou para não ser preso e vice é parte da equipe que roubou Paraguai, diz opositor

Por Daniela Arcanjo/Folhapress

06/11/2026 às 08:50

Foto: Divulgação

Imagem de Peña renunciou para não ser preso e vice é parte da equipe que roubou Paraguai, diz opositor

Santiago Peña

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou sua renúncia nesta quinta-feira (5) para não ser preso, e seu vice, Pedro Alliana, é parte da mesma equipe que roubou a população do país, afirma Efraín Alegre, opositor do governo de direita e um dos principais nomes do Partido Liberal.

Até esta semana lembrado como um paraíso para investidores pela baixa carga tributária e pela segurança econômica, o Paraguai mergulhou em uma crise política após o colapso do Ueno Bank afetar cerca de 3 milhões de clientes —quase metade do país.

A investigação da fraude milionária respingou em Peña, ex-investidor da holding do banco e responsável por, em 2023, nomear Carlos Carvallo Spalding, então presidente-executivo da companhia, para a presidência do Banco Central do Paraguai.

Candidato à Presidência em 2013, 2018 e 2023 —e, em todas as oportunidades, derrotado pelo Partido Colorado, de Peña— Efraín afirma que a atual crise é, na verdade, uma crise no sistema político paraguaio, que ele acusa de ser sustentado "com muita força e dinheiro do crime organizado, além da verba pública".

Em 2023, o ex-presidente colorado Horacio Cartes e correligionários foram alvos de sanções dos Estados Unidos por acusações de corrupção. A sigla está no poder há oito décadas, com apenas uma interrupção de cinco anos nos quais o esquerdista Fernando Lugo governou.

"Os afetados por essas sanções têm o direito, e devem ter também a obrigação, em alguns casos, quando se trata de figuras públicas e políticas, de se defenderem", afirmou Peña ao ser questionado pelo El País sobre as punições enquanto concorria à Presidência, em 2023.

O que o colapso do Ueno Bank significa para a política paraguaia?
Em primeiro lugar, nós esperávamos o julgamento político e a destituição. Peña renunciou para tentar manter seus foros. É apenas uma estratégia dele, que não quer ser preso nem devolver o que roubou.

Isso não resolve os problemas. Essa era uma entidade que, quando Peña assumiu, era uma financeira. Em quatro meses de governo, ela se transformou em um banco e começou a captar recursos públicos —os regulamentos das instituições foram modificados para permitir que um banco com pouca trajetória financeira pudesse captar recursos do Estado.

Nada disso poderia ter acontecido sem a cumplicidade do poder. Há responsabilidade não apenas de Peña, mas de Alliana, vice-presidente, e também do Banco Central do Paraguai, da Superintendência de Bancos, do Instituto de Previdência Social. Todos eles devem ser processados. E o importante é recuperar o dinheiro roubado das pessoas e das instituições.

Três milhões de paraguaios e paraguaias foram afetados por essa instituição financeira. Entre esses compatriotas, estão as pessoas mais vulneráveis, o cidadão e a cidadã trabalhadora. São pessoas humildes, porque esse banco apresentou uma plataforma que tornou a bancarização acessível a qualquer cidadão. Milhões de paraguaios confiaram e hoje estão sofrendo, ficaram sem suas poucas economias. É uma verdadeira tragédia social.

Nos últimos anos, o Paraguai se consolidou como um bom destino para investidores. Muitas pessoas até se mudaram para lá, inclusive muitos brasileiros. Essa crise é algo circunstancial ou abala a confiança no país?
O que está acontecendo prejudica muito nossa imagem como país e como destino de investimentos. A macroeconomia está estável, a inflação histórica, dos últimos 20, 30 anos, não ultrapassou um dígito, o endividamento está controlado. É um país com uma pressão tributária muito baixa.

É claro que seria injusto deixar de dizer que isso representa apenas uma parte do Paraguai. Há outra parte que vive na pobreza, que enfrenta necessidades. Mas, naturalmente, essa não é a preocupação daqueles que vêm investir. Os investidores querem inflação baixa, estabilidade, previsibilidade e segurança. E acredito que o que está acontecendo hoje nos atinge sobretudo em matéria de credibilidade e previsibilidade institucional.

Se as instituições que devem salvaguardar o bom funcionamento financeiro de um país são cúmplices de um roubo de US$ 3 bilhões, então isso coloca em dúvida todo o resto que pode acontecer no âmbito das finanças de um país como o nosso.

Esta é uma crise de governo ou de sistema político?
É uma crise de Estado. Este é um sistema político em crise há bastante tempo, mas o Partido Colorado, com muita força e dinheiro do crime organizado, além da verba pública que controla há muito tempo, conseguiu continuar mantendo o controle das instituições. Com esse dinheiro, controlam o Poder Judiciário, a Justiça Eleitoral e as maiorias no Congresso.

Esse sistema, que já está em crise e vem sendo sustentado com muito dinheiro ilegal, hoje sofreu o último golpe. Vejo uma indignação justificada de milhões de compatriotas que, tenho certeza, vão levar isso em consideração nas próximas eleições.

O senhor tentou chegar à Presidência três vezes e não conseguiu alcançar esse objetivo. O que explica essa hegemonia do Partido Colorado?
Bom, a hegemonia do Partido Colorado se sustenta, em primeiro lugar, em uma quantidade enorme de recursos de que eles dispõem a partir do setor público e do crime organizado. Isso permite que eles controlem as instituições. E também precisamos dizer, porque é preciso ser claro sobre o que acontece, que isso também lhes permite comprar setores da oposição.

E não nos permitiram competir em eleições justas e transparentes. Não nos permitiram disputar em condições de igualdade com a continuidade do Partido Colorado. Eles sempre se encarregaram, por meio do dinheiro, de dividir a oposição. Nós não temos segundo turno. Então, eles se encarregaram de nos dividir.

Nas últimas três eleições, em todas elas, se não fosse pela divisão da oposição, teríamos que estar vencendo. Hoje mesmo, o Partido Colorado está no poder sendo minoria, com 41% dos votos [o Paraguai não tem segundo turno].

59% dos paraguaios e paraguaias votaram pela mudança nas últimas eleições, mas eles se encarregaram de financiar a divisão para que não pudéssemos realizar a mudança de que o Paraguai precisa. E fizeram isso em 2023, 2018, 2003. Mas, sem dúvida alguma, também há uma responsabilidade da oposição.

Na sua opinião, existe um distanciamento entre a oposição e a população?
A população nunca se equivocou. Tivemos maioria na oposição em 2013, 2018 e 2023. Quem se equivocou foram alguns setores da oposição que receberam dinheiro do Partido Colorado para dividir. Por isso, estamos tentando emplacar um único candidato da oposição. Isso nos dá segurança para vencer.

Em muitos países, crises como essa que o Paraguai está vivendo abriram as portas para forças radicais. O Paraguai corre esse risco?
Acredito que é uma oportunidade e um desafio para a oposição. É preciso entender o momento, compreender a demanda dos cidadãos, chegar unidos, com uma proposta única e uma candidatura única. Quem está em crise hoje é a extrema direita que este governo representa.

O senhor relaciona o que ocorreu no Paraguai com o escândalo do Banco Master, no Brasil?
Sim, muito parecido. Muito parecido em uma questão central e fundamental: a cumplicidade do poder público. Sem a cumplicidade do poder político, isso que aconteceu no Paraguai não poderia existir. O que aconteceu no Brasil também não teria ocorrido se não houvesse responsabilidade e cumplicidade de setores do poder político.

Quais são os próximos passos da oposição?
Nada foi resolvido. As coisas continuam iguais. Alliana faz parte da mesma equipe que roubou o povo paraguaio. A grande tarefa agora é fazer com que o cidadão recupere até o último guarani que essas pessoas roubaram.

O que não podemos aceitar, e é isso que esses criminosos estão propondo, é criar outro fundo de garantias, o que significa pedir mais dinheiro ao povo paraguaio para pagar aquilo que eles nos roubaram. É um verdadeiro escândalo. Não querem devolver o dinheiro e não querem ir para a prisão. As duas coisas são inegociáveis para mim. Devem devolver o dinheiro e devem terminar na prisão.

Raio-X | Efraín Alegre, 63

Candidato à Presidência do Paraguai nas últimas três eleições do país, o advogado presidiu o Partido Liberal Radical Autêntico, principal sigla da oposição, de 2016 a 2023. Foi professor de direito na Universidad del Norte, em Assunção, por dez anos, deputado de 1998 a 2008, e ministro de Obras Públicas do ex-presidente Fernando Lugo.

 

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