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Manobra na Rede pode impedir baiana de ser a primeira mulher negra a presidir partido no Brasil
Manobra na Rede pode impedir baiana de ser a primeira mulher negra a presidir partido no Brasil
Por Política Livre
25/05/2026 às 17:12
Atualizado em 25/05/2026 às 17:15
Foto: Divulgação/Arquivo
Iaraci Dias, porta-voz número dois da Rede Sustentabilidade
Depois de 15 anos de militância política, a baiana Iaraci Dias está prestes a entrar para a história da política brasileira como a primeira mulher negra a presidir nacionalmente um partido político. Atual porta-voz número dois da Rede Sustentabilidade - cargo equivalente à vice-presidência -, ela deve assumir o comando nacional da legenda no próximo dia 10 de junho. , por força de um rodízio previsto no regimento interno da sigla.
No caminho, todavia, Iaraci enfrenta um processo de expulsão coordenado pelo diretório nacional após decisão do Conselho de Ética do partido, que segundo ela é uma manobra para impedir sua posse, prevista regimentalmente num modelo de rodízio com o atual presidente Paulo Lamac (MG).
“Eu não aceito sair pela porta do fundo. Tudo isso para dominar a máquina, tudo isso por um CNPJ, e a Rede não é só um CNPJ, a Rede é um partido com concepções, criado para realmente ser diferente, para a gente tentar, de uma nova forma, trabalhar por uma nova política”, afirmou Iaraci.
O argumento para sua expulsão decorre de uma denúncia sobre a suposta prática de perseguição política contra uma candidata no município de Itabuna, no sul da Bahia. Em sua defesa, ela refuta que “a representação não apresenta qualquer prova concreta” de tais atos, além de ter estranhamente formulada por um não filiado à Rede.
“Não há sequer mensagens, áudios, vídeos, documentos, depoimentos formais ou qualquer outro elemento material minimamente idôneo que indique qualquer filigrana de
conectividade com o que se acusa. As acusações repousam exclusivamente sobre conjecturas e interpretações políticas subjetivas do representante”, diz trecho da defesa.
Antes de levar a denúncia adiante, conta Iaraci, a cúpula da sigla tentou mudar os termos estatutários para vetar sua ascensão. “Como a modificação do estatuto não prevaleceu, eles usaram essa prerrogativa para poderem me prejudicar e me tirar do rodízio […] sou histórica na Rede, fundadora da Rede e em momento nenhum maltratei ninguém. Não existe isso, é uma narrativa fabricada e aprovada só para me tirar a presidência nacional.”, emendou.
A dirigente baiana é da ala da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, uma das fundadoras do partido - junto com Heloísa Helena, apoiadora de Lamac. Marina e Heloísa, contudo, estão em ferrenha disputa interna, o que já levou a ministra cogitar deixar o partido.
Desde então, segundo ela, o ambiente na legenda é outro. A gente nunca viu isso dentro da Rede, a gente estava acostumado a fazer congressos com festa, com música, com batucada, com dança, com poesia, falando da política, mas confraternizando. Era uma grande festa nossos congressos, agora virou um campo de batalha, um cangaço”desabafou.
Com a denúncia e o processo de expulsão vieram também o desapontamento por uma legenda que ela ajudou afunda, conforme relembra. “Em 2015, já nos 45 minutos do segundo tempo, foi que a gente conseguiu registrar o partido e a minha assinatura na ata de fundação do partido está lá. Eu fui uma das que assinou a ata e não foi porque eu era bonitinha não, foi porque eu trabalhei”.
“Toda a luta que nós travamos nesses 11 anos resultou em algo totalmente diferente daquilo que a gente acreditou. Esse tipo de conduta, esse tipo de procedimento quer nos fazer crer que a política não é o lugar para pessoas como eu. Eu sou muito boa para construir, mas não sou boa para usufruir o suficiente […] Eu estou tentando hoje eu lutar pela minha dignidade, muito mais do que um cargo”, acrescentou.
Ela apontou ainda a ironia de ser vetada numa legenda fundada por duas mulheres (Marina e Heloísa) “que são respeitadas na sociedade política, que lutaram e que não se renderam”.
“É uma decepção, um saldo extremamente negativo de um partido que eu acreditava ser realmente diferente. Não é diferente […] a Rede era um partido pequeno, agora ficou nanico”, completou.
Leia também: Rede expulsa Iaraci Dias, dirigente baiana da ala de Marina Silva
