'Não existe mais a imagem verdadeira', diz diretor de filme sobre polarização
Por Gabriel Araújo, Folhapress
21/10/2026 às 15:00
Atualizado em 21/10/2026 às 13:58
Foto: Divulgação/Arquivo
Cena de 'Politiktok', documentário de Álvaro Andrade Alves
Nos dias que antecederam o segundo turno da eleição presidencial de 2022, entre Lula e Jair Bolsonaro, o diretor e roteirista Álvaro Andrade Alves começou a gravar, sem uma intenção prévia, lives e conteúdos que apareciam na timeline de seu TikTok.
Ele, assíduo espectador da rede social chinesa desde a pandemia de Covid-19, conta que se encantou pelo universo das lives no aplicativo. Chamou mais ainda sua atenção, contudo, o modo como discussões políticas entre esquerda e direita inundavam a plataforma, mesmo em postagens não relacionadas ao assunto.
Nos dias que antecederam o segundo turno da eleição presidencial de 2022, entre Lula e Jair Bolsonaro, o diretor e roteirista Álvaro Andrade Alves começou a gravar, sem uma intenção prévia, lives e conteúdos que apareciam na timeline de seu TikTok.
Ele, assíduo espectador da rede social chinesa desde a pandemia de Covid-19, conta que se encantou pelo universo das lives no aplicativo. Chamou mais ainda sua atenção, contudo, o modo como discussões políticas entre esquerda e direita inundavam a plataforma, mesmo em postagens não relacionadas ao assunto.
Exemplo desse método está na sequência dedicada ao momento em que a então deputada federal Carla Zambelli, hoje foragida da Justiça brasileira, persegue um homem com arma em punho em São Paulo, em 2022.
O diretor apresenta o fato a partir de diferentes perspectivas das pessoas que o registraram. "Várias versões do vídeo dela vão aparecendo na medida que a cena vai e volta, e você nota como até algo que você percebeu no primeiro vídeo, quando muda o ponto de vista, já é diferente. As versões das pessoas vão mudando, mas, ainda assim, elas se arrogam uma autoridade. Tento fugir dessa ilusão e mostrar que tudo é parcial, tudo é um ponto de vista."
Essas diferenças de pontos de vista, potencializadas pelas bolhas informacionais características da distribuição do conteúdo em rede, evidenciam, segundo Alves, que já não existe mais um significado em comum em torno de determinada imagem.
"Se a gente pensar em toda essa trajetória das imagens, desde esse processo de popularização da câmera e de como isso representava um ganho com certo potencial civilizatório, tudo isso foi por água abaixo."
O imbróglio assume novos contornos diante do uso massivo das ferramentas de inteligência artificial durante a atual campanha eleitoral.
"O princípio do qual a gente tem que partir agora é o de que não existe mais a imagem verdadeira", afirma o diretor. "Talvez apenas as que já foram muito arquivadas e que já são conhecidas pelo repertório cultural e social. Fora isso, não tem mais como garantir nada."
Para ele, contudo, pôr o campo das imagens e discursos virais na internet sob análise pode garantir mais chances "de proteger a democracia que ainda existe", nas suas palavras.
"O processo está sendo todo guiado por donos de big techs, que não só lavam as suas próprias mãos, como assumem, muitas vezes, perspectivas declaradamente fascistas", ele afirma, citando como exemplo o apoio de Mark Zuckerberg e Elon Musk à candidatura de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
"Há uma crença muito grande e muito ingênua no poder das redes. Talvez a minha intenção seja mostrar que isso é um engano, nada além de uma versão mediada. A única diferença é que está todo mundo fazendo e assistindo, está pulverizado", diz Alves.
